Autarciologia - Introspecção Doutrinária IV

1. Os prazeres instintivos embriagam e ofuscam a consciência, facilitando o domínio do noumenon fisiológico* (a criatura) sobre razões desguarnecidas.

1º lume – As duas faces humanas e a educação.

ILUMINANDO – Sendo a personalidade humana caracterizada por uma face instintiva – fisiológica e irracional (o instinto) –, e uma face intelectiva – intuitiva e racional (inteligência) –, não é difícil perceber que processos de educação humana devem atentar para essa condição. Pois a face instintiva, produto de demandas fisiológicas funcionais orgânicas, e a face intelectiva, produto de orientações genéticas e de orientações socioculturais produzem compleições pessoais que concorrem entre si em busca da dominação.

 Conclusão: Políticas e doutrinas educacionais devem assegurar que a militância perpetuante primária, reflexo das demandas das unidades funcionais orgânicas, não usurpe o protagonismo administrativo sobre atitudes e ações, posturas e omissões cabido a face intelectiva racional. Ou seja: a tábua da razão humana é palco de emulação entre interesses instintivos associados a conservação, e interesses sociais associados a sustentabilidade socioemocional humana.

Lógica: A razão instintiva é inata, involuntária e parcial. Concorre para se apropriar e escravizar a razão intelectiva em benefício da produção de atitudes e ações, posturas e omissões compromissadas unicamente com a conservação (alimentação, defesa e reprodução).

A razão intelectiva, no entanto, não é inata, é confeccionável, e é vulnerável às orientações instintivas. Ainda que esteja contida nela orientações genéticas culturais. O que significa dizer que a razão que deve gerenciar o comportamento humano é construída por informações culturais. Consequentemente, doutrinas educacionais devem providenciar para que atividades e conteúdos disciplinares sejam filtrados e adequados a natureza intelecto-orgânica humana para que não ocorra a potencialização do instinto e consequente estreitamento racional. – A razão deve funcionar como faculdade de orientação e limitação das vozes instintivas. Quando a razão é subordinada parcialmente às demandas do funcionalismo fisiológico, ignorando o legado de normas e regras estruturadas sob conhecimento científico, a faculdade de raciocínio inteligente é disponibilizada para maquinar estratégias bélicas na corrida pela alimentação, defesa e reprodução. Ou seja: para produzir satisfação pessoal em função de agressividade e notoriedade socioeconômica e sexual.

* noumenon = a coisa em si.

* noumenon fisiológico = “a coisa em si da fisiologia” (fenômenos bioquímicos e biológicos responsáveis por estimular o sistema intelecto-orgânico humano; que geram, direta ou indiretamente, impulsos de solicitação e impulsos de orientação que orientam compleições pessoais, adjetivando-as e destinando-as para atendimento de demandas específicas associadas a alimentação, defesa e reprodução [livro 3 da Coleção Axiliação]). 

2. Moral e ética e autarcia, assim como oxigênio e água e alimentação, que são substratos para a fenomenização da vida, são substratos para a fenomenização equilibrada das orientações humanas.

2º lume – Moral e ética e autarcia como instrumento de orientação da razão humana.

ILUMINANDO – Sendo a moral, domínio próprio; a ética, respeito ao próximo; e a autarcia, resignação, então, tais adjetivações pessoais, em busca da dominância da inteligência sobre a instintividade, concorrem conjuntamente para abolição da razão humana das amarras primárias ditadas pela força vital da fisiologia. 

Conclusão: A funcionalidade de unidades funcionais orgânicas desperta necessidades; tais necessidades instruem compleições pessoais para busca de satisfação. Consequentemente, a moral, a ética e a autarcia devem funcionar como instrumentos de amortização, limitação e reorientação das pulsões fisiológicas primárias. O que significa dizer que a fome, a agressividade e a libido, clamores básicos da fisiologia para conservação, devem ser orientados por uma razão moral, ética e autarcicamente assessorada. Ou seja: a moral, a ética e a autarcia são valores que fazem distinguir a agressividade compulsiva dos irracionais – diante de obstáculos para alimentação, defesa e reprodução –, das atitudes e ações, posturas e omissões esperadas do homem intelecto-orgânico*.  

Lógica: Moral e ética e autarcia, na autarciologia, não têm conotação relativa a culturas. Na autarciologia, moral e ética e autarcia denotam instrumentalização orientada pela matematicidade genética. O que significa dizer que o domínio próprio, o respeito ao próximo e a resignação buscam garantir que o conjunto de unidades funcionais orgânicas do corpo humano desempenhem suas funções de modo que suas atribuições fisiológicas e anatômicas justifiquem o ritual genético de fenomenizações que induzem a conservação da espécie dita inteligente.

*homem intelecto-orgânico = homo intellectus organicum = ser humano

3. A atitude e a ação, a postura e a omissão contraditórias, autodestrutivas, não são produtos de um arbítrio livre, geralmente são produtos de uma razão amordaçada ou escravizada pelas pulsões fisiológicas.

3º lume – Emancipação da razão.

ILUMINANDO – Livre arbítrio significa o poder de decidir sobre atitudes e ações, posturas e omissões independentemente dos objetivos e das consequências que serão produzidas. No entanto, a consciência humana é fortemente inundada por demandas fisiológicas que escravizam a razão, não permitindo a construção de arbítrio livre da coação instintiva.

CONCLUSÃO: O livre arbítrio é uma faculdade de reflexão sujeita à influência do instinto. Consequentemente, os entendimentos gerados na consciência ficam expostos a orientações vitais da fisiologia, a qual se atém objetivamente a produção de atitudes e ações, posturas e omissões voltadas organicamente para conservação da vida elementar. 

LÓGICA: O grau de lucidez das atitudes e ações, posturas e omissões deliberadas pela faculdade de livre arbítrio varia em função do grau de lucidez nas informações que construíram ou que assessoraram a formação de uma razão. O que significa dizer que a razão humana, contrariamente à razão irracional, deve ser lapidada por informações e conhecimentos que sejam expressão de discernimentos blindados das interferências fisiológicas instintivas. Pois tais influências impõem temperamento irracional nas atitudes e ações, posturas e omissões humanas. Induzem a devaneios instintivos que passam a justificar qualquer atitude e ação, postura e omissão, independentemente de que produzam violações, desde que sejam voltadas intransigentemente para a conservação ou satisfação pessoal unilateral. – O livre arbítrio não garante liberdade de expressão quando a razão em que vem assentado está subordinada a pulsões instintivas. Por isso, nem sempre se consegue deixar de fazer o que se deseja não fazer mais.

4. Seres irracionais vivem acorrentados a orientações instintivas... E o homo, para ser intellectus, não deve ser somente organicum – a inteligência é uma faculdade que precisa ser lapidada.

4º lume – Arbítrio Livre Intelectivo e a libertação da alma.

ILUMINANDO – Se o Livre Arbítrio é a liberdade de expressar uma ação, um entendimento ou uma opinião, independentemente de estar certo ou de estar errado…, o “Arbítrio Livre Intelectivo” é a liberdade de expressar atitudes e ações, posturas e omissões a partir de uma razão desacorrentada das moções instintivas primárias.

CONCLUSÃO: O arbítrio livre intelectivo representa faculdade de reflexão responsável por averiguar fatos ou informações de maneira blindada das informações e imposições primárias instintivas. Permitindo a consciência uma deliberação sóbria diante das mais variadas situações. O que significa dizer que tal arbítrio impede que atitudes e ações, posturas e omissões sejam executadas inocentemente ou por falta de conhecimento; ou, ainda, impede que sejam executadas em função da sobreposição das orientações instintivas às orientações sóbrias inteligentes. 

LÓGICA: A alma, conjunto das faculdades morais, psíquicas e intelectuais humana, representa uma faculdade cognitiva constituída por informações somadas a razão. Então, a alma pode vir subordinada, em maior ou menor grau, a orientações instintivas, ou subordinada a orientações intelectivas em maior ou menor grau. O que significa dizer que uma alma que delibera atitudes e ações, posturas e omissões livremente é constituída por um arbítrio livre intelectivo. Tal arbítrio é estabelecido na razão a partir do autoconhecimento de como se fenomeniza as demandas da fisiologia no processo de construção da opinião e do conhecimento – Os processos de educação humana, que devem vir desacorrentados das punções instintivas, são responsáveis por libertar a alma ou por condenar a alma a condição de marionete do instinto.

5. Enquanto as tecnologias avançam, o homem contemporâneo é encantado e possuído pelos produtos de informações dionisianas subordinadas a volúpia das imposiçõpes metabólicas instintivas.

5º lume – Entre a regência do instinto e a regência da intelecção.

ILUMINANDO – Revolução Tecnológica Digital – Possibilidades comportamentais, sociais, negociais, empresariais e tecnológicas são despejadas, ensaiadas ou simuladas na dimensão virtual digitalizada. Estamos em período de aclimatação da “ambientação natural” com a “ambientação virtual digitalizada”. A matematicidade genética que dá vida a condição biológica é adaptada e aplicada para soprar vida nas narinas da condição artificial digitalizada.  Contudo, a expressão pessoal de vida biológica inteligente, que deve gerenciar sobre a condição de vida artificial digitalizada, ainda continua escravizada pela expressão animal de vida irracional primitiva (o instinto).

CONCLUSÃO: A raça humana entrou em um período de aclimatação à realidade futurista tecnológica sem conseguir se emancipar das garras da fisiologia. O que significa dizer que o passo fundamental para evolução intelectosensorial, necessário para calibração dos sentidos diante das inovações tecnológicas, está sendo obstado em função da subordinação humana aos processamentos biológicos vitais que orientam razão instintiva. 

LÓGICA: O homo intellectus organicum*, que ainda não conseguiu suplantar as amarras da orientação instintiva, se depara com um novo desafio: implantar a vida artificial virtual digitalizada (humanoides) sem conceder espaço para sua própria escravização. – A subordinação ao instinto expõe a espécie inteligente a ser manipulada pela orientação instintiva e escravizada pela orientação virtual digitalizada.

*homo intellectus organicum = ser humano.

6. O instinto determina corrida pela alimentação, defesa e reprodução, dinâmica existencialista para conservação: ferocidade predatória animal e violência humana têm a mesma origem.

6º lume – Violência, expressão das habilidades irracionais para conservação instruindo a alma.

ALMA – Sendo a alma o conjunto das faculdades morais, psíquicas e espirituais humana, e o espírito a disposição de entendimento assentada na razão de uma estrutura intelecto-orgânica, então a alma se caracteriza por ser faculdade de discernimento responsável por orientar entendimentos expressos pela razão.

VIOLÊNCIA – Sendo a violência a impetuosidade agressiva que adjetiva as habilidades irracionais para conservação, assentada na intuição instintiva-orgânica irracional, então a violência se caracteriza por ser uma imposição genética responsável por orientar ações predadoras para a conservação irracional (animal e vegetal).

CONCLUSÃO: Naturalmente, a razão humana é sujeita, antes de qualquer instrução sociocultural, a imposições genéticas responsáveis por assegurar a conservação vital. O que significa dizer que existe uma didática instintiva espontânea que rege toda estrutura orgânica animal e vegetal para a manutenção e busca da conservação. Ou seja: tal didática instintiva espontânea é involuntária e natural. Predispõe homens e irracionais a volúpia instintiva para a garantia de alimentação, defesa e reprodução. 

LÓGICA: Sistemas Educacionais Humanos devem atentar para o ímpeto do rito didático-instintivo que orienta e impulsiona demandas fisiológicas, gerando compleições primárias para busca da conservação. Então, políticas e doutrinas educacionais devem assegurar que os olhos que veem e que leem, assim como os ouvidos que ouvem e que norteiam sejam monitorados e orientados por uma razão intelectiva que não se subordine a pulsões fisiológicas primárias, insensíveis, que impõem atitudes e ações, posturas e omissões compromissadas unicamente com a conservação das espécies.

7. Os olhos que veem leem o que a consciência interpreta... E a consciência interpreta em função de razão orientada benignamente pelas ciências, ou conforme razão subordinada malignamente pelo instinto.

7º lume – Retroatividade Moral: um empecilho contra a evolução.

MORAL– Instrumento de reflexão responsável por limitar a expansão instintiva sobre a razão. Na autarciologia, moral é o mesmo que domínio próprio.

EVOLUÇÃO – Representa transformação, adaptação ou melhoramento genético em atendimento a uma demanda de ambientação para subsistência sustentável em meio a possibilidades inovadoras de interação. 

 CONCLUSÃO: O homo intellectus Organicum vem, ao longo dos séculos, se adaptando e se transformando em atendimento a grandes demandas criadas pelas inovações sociais e tecnológicas. Não acompanhar tal revolução pode significar a extinção de um ou de outro seguimento social. O que significa dizer que a adaptação ou transformação, em atendimento a transformações ambientais, tecnológicas e sociais, exigem quebra de paradigmas e reorientação a um novo alinhamento. Então, inércia temperamental ideológica, produto de orientações fisiológicas elementares, deve ser superada por razões moralmente orientadas. Ou seja, uma razão moralmente orientada é uma razão que estabelece domínio sobre toda e qualquer atividade instintiva que tente usurpar a faculdade de inteligência e neutralizar a possibilidade de mobilidade racional que vise a adaptação a uma nova realidade.

LÓGICA: Retroagir moralmente é diminuir a autonomia intelectiva da razão sobre a corrente de orientações instintivas; é entregar ao instinto de conservação a incumbência de orientar compleições pessoais, isentando-as da dotação de discernimento intelectivo associado a normas e regras para bom regimento pessoal e social.  Ou seja: retroagir moralmente é um retrocesso evolutivo; é uma involução ao homem originário; é impedir ascensão a um novo degrau da cadeia de evolução. Para a autarciologia, moral não é um valor que possa ser relativizado em função de culturas… Moral é o esfíncter intuitivo responsável por regular e limitar as orientações instintivas levantadas pelas atividades fisiológicas em atendimento a demandas de unidades funcionais orgânicas. Então, moral*, em conjunto com ética* e autarcia*, é substrato sensorial responsável pelo equilíbrio, desenvolvimento e evolução humana.

*moral = domínio próprio   /   *ética = respeito ao próximo   /   *autarcia = resignação